sexta-feira, 30 de março de 2018

A Procissão do Miserere


Há vários anos, o Movimento Renovador de Mariana, organização não governamental sediada na Casa de Cultura de Mariana então presidida pela saudosa Efigênia Maria da Silva, realiza, à meia noite da sexta-feira da Semana Santa, a já tradicional Procissão do Miserere. Essa procissão foi narrada, pela primeira vez, pelo escritor Waldemar de Moura Santos, um dos fundadores da Academia Marianense de Letras, no seu livro "Lendas Marianenses", editado pela Imprensa Oficial do Estado de Minas Gerais, em 1966. Abaixo, a síntese transcrita do referido livro.

     "Durante as sextas-feiras da Quaresma, saía da igreja da Arquiconfraria de São Francisco do Cordão uma procissão em direção à igreja de São Francisco da Ordem Terceira da Penitência.
Era um cortejo formado por Irmãos falecidos e ninguém, vivo, podia assistir a esse macabro desfile, arriscando-se a quem o tentasse à severa repreensão dos componentes. Os moradores da rua Nova ouviam dentro de casa, apavorados, os rumores da procissão lá fora, que era precedida por um grande crucifixo e os braços de São Francisco, cercado em alas de Irmãos que conduziam velas de cera acesas. Os residentes da rua Nova, hoje Dom Silvério, por precaução ou medo, jamais procuraram observar a movimentação do préstito, contentando-se, somente, em ouvir os cânticos tétricos ou a lamentação lúgubre desses fiéis defuntos em peregrinação pelo mundo. Todos conheciam e atestavam a realidade dessas procissões de alma às sextas-feiras da Quarema, mas de perto ou de relance ninguém podia confirmar a existência real delas. Perdurava profundo mistério. Alguns mais ousados tentaram observá-las de longe, outros mais destemidos tentaram impedir a marcha da procissão.
 
    Depois de várias tentativas inúteis, a população sossegou, contentando-se em ouvir e jamais espreitar a macabra procissão de almas, cujas alas se engrossavam à proporção dos anos vencidos.
Um fato, entretanto, aconteceu para arrepiar os cabelos. Uma senhora viúva e respeitável macróbia mudou-se para uma das casas da rua Nova, pois tinha sido despejada de um casebre e repudiada por todos os moradores da rua de São Gonçalo, onde tal mulher era tida como mexeriqueira das mais perigosas.
    Falava o que sabia e o que ignorava. Era uma faladeira profissional e temível. Nada lhe escapava da língua ferina. Era o diabo em figura de gente. Isolada, passou a espreitar até altas horas da madrugada a vida noturna dos noctívagos inveterados. Certa noite, a velha gazeteira, debruçada sobre a janela, olhava despreocupadamente, a rua ensopada e escuta os ruídos da enxurrada no meio da calçada.
    Sem que esperasse, surge a procissão do Miserere e um dos Irmãos, envergando um hábito preto e de capuz, ofereceu-lhe uma vela. A terrível mulher recebe a vela e a deposita em cima da cama, voltando à janela para contemplar ao longe o retorno do desfile. À volta, conservando-se no mesmo lugar, o Irmão exige a entrega da vela. A matreira mulher vai pressurosa ao quarto e, ao invés da vela de cera, encontra uma ossada de defunto, constituído de uma canela ainda envolta em terra.
 
- Mulher, disse o Irmão, guarda sua língua e deixa a noite para os mortos. O sono dos vivos é o prelúdio da morte. Não seja curiosa.
Passados alguns dias, morreu a velha mais faladeira da Rua Nova".

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