sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Um episódio e duas versões

Li nas páginas 48 e 49 do livro “Benjamim Lemos, a história de um marianense”,  patrocinado pela Câmara Municipal de Mariana e lançado recentemente pela sua família para comemorar o centenário de seu nascimento ocorrido em 31 de agosto de 2015, o seguinte episodio.

“Fim de expediente na prefeitura, Benjamim Lemos arrumou sua mesa e saiu apressado em direção à Cúria Metropolitana. Precisava se encontrar com Monsenhor Vicente Diláscio. Ia refletindo em algo que pudesse ser feito para impedir uma ação municipal que parecia inevitável. Pensou em Monsenhor Vicente por três razões: era seu amigo, era membro da Arquidiocese de Mariana e, por fim, amigo e conterrâneo do governador mineiro Tancredo Neves. Chegou à residência do Monsenhor, anexa à Cúria, e contou o que lhe afligia.
O prefeito João Ramos Filho havia solicitado ao procurador Derly Pedro da Silva que encontrasse, dentro do município, áreas disponíveis e apropriadas para implantação de um novo bairro. Ação comum nessa época, pois a instalação das companhias mineradoras Samitre, Samarco e Vale provocou uma rápida expansão de loteamentos. Derly pesquisou e sugeriu o terreno pertencente à Mitra Arquidiocesana. João Ramos aprovou o local e, como era usual, Derly passou para Benjamim as informações necessárias para que se fizesse o decreto de desapropriação. Segundo Derly, “na hora que ele viu de que área estava tratando, roxeou, mas não falou nada”, fez o decreto como se nada estivesse acontecendo, porém em uma via a mais, que tinha endereço certo.
Por isso estava ali, diante do Monsenhor Vicente. Mostrou-lhe a cópia extra que havia feito e, imediatamente o Monsenhor ligou para o Palácio da Liberdade, em Belo Horizonte, solicitando ao governador Tancredo Neves que intercedesse por Mariana, no sentido de impedir que um novo loteamento surgisse naquele local. A solução possível foi decretar a área como de preservação ambiental. Assim, na mesma edição do Diário Oficial em que saiu o decreto municipal de desapropriação da referida área, saiu também o decreto estadual, declarando a área como APA – Área de Preservação Ambiental.
“Naquele tempo”, esclarece Derly, “na política de Mariana as coisas estouravam no final de semana, íamos até o juiz para ele assinar um determinado documento, depois corríamos para levá-lo em Belo Horizonte para publicação no Diário Oficial e, quando estávamos voltando, o grupo de oposição já estava levando outro documento que desfazia o que havia sido levado antes” Assim foi e assim tem sido em Mariana, uma forma muito peculiar de fazer política, que começou no final do século XIX e se acentuou no início do século XX”, concluiu o texto.

Desapropriação da mata do seminário
Em postagem datada de 21.01.2009, em meu blog, escrevi a seguinte Memória Política
“Na década de 1980, o então prefeito de Mariana, João Ramos Filho, resolveu desapropriar a mata do Seminário, próxima do Instituto de Ciências Humanas e Sociais (ICHS), área de propriedade da Arquidiocese de Mariana, para nela construir o bairro Cabanas.
 
"Inconformada com a decisão unilateral do prefeito, a Arquidiocese de Mariana, representada pelo saudoso arcebispo Dom Oscar de Oliveira, recorreu ao então governador de Minas Gerais, Tancredo Neves, pedindo-lhe que a referida propriedade não fosse desapropriada. O pedido foi encaminhado ao governo de Minas por intermédio do falecido empresário Januário Carneiro, dono da emissora de rádio Itatiaia, amigo íntimo de Tancredo Neves. O governador, que também era muito amigo do arcebispo, para evitar a desapropriação municipal, decretou também a desapropriação da mata do Seminário declarando aquela área de preservação ambiental.
Irado com a decisão do governador, João Ramos resolveu perseguir o Januário Carneiro. Desapropriou a sua residência em Passagem de Mariana. O governador, para proteger o amigo da perseguição política do prefeito, resolveu desapropriar também o imóvel, declarando sua residência área de preservação cultural. Com esses dois decretos estaduais, o governador evitou que os imóveis da Arquidiocese e de Januário Carneiro fossem desapropriados.
Na ocasião, os vereadores da Direita tentaram conceder o título de cidadão honorário de Mariana a Januário Carneiro, mas a bancada majoritária da Esquerda que dava sustentação política a João Ramos não deixou. No dia 21 de abril de 1985, quando Tancredo Neves morreu, a Esquerda enfumaçou Mariana com um intenso foguetório regozijando a sua morte.
Anos mais tarde, João Ramos resolveu homenagear o falecido governador dando nome de Tancredo Neves à antiga Praça Bandeirantes. No dia da solenidade de mudança de nome da praça, a família de Tancredo Neves não compareceu: mandou representante”.

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